*A escolha

A escolha

– Porque você está aqui?

– Eu vim para que alguém saiba realmente como vivi.
Preciso que conheçam minha alma e saibam que em muitas vezes que pareci forte foi justamente quando me senti tão vulnerável e frágil.
Estou aqui para que vejam que há trevas em mim muito mais do que supus haver e muito mais do que qualquer um poderia imaginar.
Eu vim para que as máscaras caiam, mesmo que para isso eu tenha que cair.

– Não quero que faça isso!
Tenho medo!

– Toda vida eu tive medo.
Medo das falhas!
Das cobranças…
De nunca conseguir atender às expectativas.
De nunca poder ter minha própria expectativa.
Quero ser livre! Deixe-me ir!

– Não viveu para atender às suas expectativas?

– Não. Mas vivi para atender tantas expectativas!

– Se eu te deixar ir, para onde irá?

– Para um lugar branco, silencioso e finalmente sentirei paz…

– Mas você precisa do caos!
O caos te faz produzir,
Reagir,
Seguir…

– Seguir para onde?
Ando em círculos há tanto tempo, não quero ser mais o ratinho preso em sua roda.

– Não vá!
Não posso te deixar ir!

– Não posso mais viver assim!
Posso ir para a luz ou ser toda “trevas” que há em mim.

– E o que é ser trevas?

– Não mais me importarei com as pessoas.
Tudo será números!
Serei uma pessoa muito bem sucedida, porque serei insensível, egoísta e implacável.
Destruirei aqueles que tentarem me impedir.
E aos aliados?
Não os terei!
As pessoas para mim serão apenas percalços para alcançar o que quiser e chegar onde preciso.

– Parece frio!
Não combina com você.

– Me revestirei de frieza até que seja a única veste que caberá em mim.

– Por que tudo isso?

– Porque você não me deixa ir.

– Se você for… Nunca mais te verei?

– Me desintegro a cada dia!

– O que isso quer dizer?

– Quem você conheceu já não existe mais!
Cada dia me perco mais nas eventualidades que minha vida se tornou.
Minhas crenças caem por terra e não mais me proporcionam alento para o amanhã.
E assim, perco a fé…
O que é o ser humano sem fé?

– É trevas?

– Ou luz…

– Pode ser luz sem fé?

– Se me deixar ir, serei luz…

– Sem fé?

– Sem nada!
A luz é o lugar onde não há mais nada além das paredes brancas, do silêncio e da paz…

– Parece vazio!

– É vazio! – Foi a resposta entusiástica.

– Por que o vazio te anima?

– Porque no vazio não há perdas!
Não há lágrimas.
Não há mentiras.
Não há injustiças.

– Mas também não há nada de bom.

– Não haver o mal é o que há de bom.

– É um caminho sem volta?

– Temo que sim!

– Sentirei sua falta.

– Sentirá falta de quem já não existe mais…

Com esse último diálogo, Katrina se deixou ir… Entre a psicopatia e o ostracismo sentiu
que realmente sua única escolha era o exílio. E nunca mais saiu do hospício de sua alma ou do manicômio silencioso com paredes brancas, mas repleto de luz…

 

Lana Novais

8 Comments

  1. No início do texto ela diz que quer que as máscaras caiam, mas no final do texto ele decide usar a máscara da loucura/ isolamento. E o pior não eh algo q ela qria, pq Qd perguntar se eh um caminho sei volta ela responde, temo q sim… só se teme coisas ruins e oq não se quer… eh ruim pq ele queria ser livre, mas em vez de lutar para tirar as algemas se colocou em um prisão com barras mais fortes e intransponíveis…ela deve ter sofrido mto mesmo para esquecer inclusive o conceito de liberdade 😢

  2. Nós, mulheres, temos tanta s expectativas a superar impostas pela sociedade que realmente beiramos a insanidade.
    Tantos momentos sou obrigada a manipular e ser oportunista por causa do meu trabalho que me sinto mesmo uma sociopata, e quando chego em casa tudo o que quero eé me fechar no meu próprio silêncio e esquecer o mundo exterior… como Katrina fez… mas fazer isso por um dia, uma semana horas, não pela vida inteira, pois sempre é importante viver… seguir… mudar… e fazer mudar!

  3. Adorei esse texto. Concordo com o spirit. Também acho que Katrina deveria ir atraz da felicidade. Todos ainda buscamos a felicidade. Não experimentar maid o mal e nem o bem estagna a alma. A vida é assim. Abraços!

  4. Hoje eu ouvi um programa que tem muito a haver com este texto (muito bom por sinal). Você vem se superando a cada texto que coloca em seu blog.

    Ter medo todos temos, dores todos temos o que nos resta é conviver com os medos e com sofreguidão, ou deixa-los para trás. Acho que foi Dalai lama que falou isso. Por isso acho que Katrina deveria ir atrás de sua felicidade.

    1. Olá, caro Spirit.

      Ela foi atrás da felicidade.
      O ostracismo lhe deu a paz que precisava, isso é o mais próximo de felicidade que ela conseguiria.
      Como ela disse, ela já não esperava coisas boas, não haver o mal era o melhor que ela poderia esperar, depois de toda dor que a vida já lhe causou…
      No exílio de sua alma ela pode não ter experimentado nada de bom, mas pelo menos não presenciou mais nenhum mal…

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