*O trenzinho

O trenzinho

Nina tinha quatro anos, era uma garota esperta, morava num barraco com mais dois irmãos, um de sete e outro de doze anos, sua mãe Denise era passadeira e seu pai um bêbado.

Nina como toda criança gostava de brinquedos, mas como convivia com dois meninos ela não gostava muito de bonecas e panelinhas, preferia soldadinhos e carrinhos.

Nina ia sempre com sua mãe a casa dos patrões buscar roupa amassada e entregar roupa passada e todos se encantavam com seus cachinhos, seus olhos negros, a doçura do seu rosto, a esperteza que lhe pertencia, e que sorriso abrasador…

Dona Beth era a patroa que Nina mais gostava, a mais rica e bondosa, com o pagamento da roupa passada sempre ia junto doces para Nina e seus irmãos, houve até algumas vezes que Dona Beth chamou Denise para entrar e tomar chá e Nina se divertia, pois podia brincar com seu filho Carlinhos, seis anos, cabelos e olhos castanhos, cabelos lisos, pele clara, diziam ser a cara do pai, um grande advogado que dava ao filho e a esposa tudo o que podia.

Nesse dia Denise tinha muitas entregas para fazer, Dona Beth pediu que deixasse Nina brincando com Carlinhos até que entregasse tudo, Denise no começo resistiu, mas com tanta insistência acabou deixando.

Nina se deliciava naquele castelo de brinquedos e sonhava que um dia ela e os irmãos teriam um também, foi quando ela viu, não podia ser verdade, seus olhinhos brilhavam… Era um trenzinho elétrico. Todas as crianças queriam um e mesmo as crianças ricas teriam que esperar até o Natal, que não estava perto e só se direitinho se comportassem, mas Carlinhos o tinha bem ali, Nina o mais que tinha era uns carrinhos de vinte centavos que seu pai trazia dos bares.

“ – Que foi Nina?
– Carlinhos, deixa eu brincar?
– Tá, mas papai mandou eu cuidar bem dele.
– Ah Carlinhos, mas é tão lindo, seu pai deve ser papai Noel ou Deus.
– Por quê?”

A mãe de Nina nunca contava-lhe histórias de papai Noel, coelhinho da páscoa, fada do dente ou histórias semelhantes, pois sabia que nunca poderia dar-lhe um presente caro, então preferia não iludi-la, mas Nina ouvia das crianças e apesar do Papai Noel sempre esquecer-se dela e de seus irmãos, Nina gostava dele, pois devia mesmo ser bonzinho para dar presentes à tantas crianças.

E Deus, bem, sua mãe agradecia a Deus pela comida, roupa, dinheiro, trabalho e todas as coisas, todos os dias e Nina pensava, “Deus deve ser bem rico para ajudar tanto a mamãe.”

Depois de muito brincar, Carlinhos fala:

“ – Nina, tenho um presente para você.
– Verdade? – Seus olhinhos brilhavam.
– Sim, papai disse que tenho muito brinquedos e que devo escolher um para dar à alguém que não tem, mamãe me disse que você não tem muito brinquedos e quero dar um para você.
– Qual você vai me dar? – Seus olhinhos não paravam de brilhar.”

Carlinhos tinha muitos brinquedos e sabia que qualquer um deles faria Nina feliz, mas nunca tinha visto Nina gostar tanto de um brinquedo como gostara do trenzinho, mas e seu pai, será que ele ficaria triste por ele dar aquele trenzinho que mal acabara de ganhar?

Por fim decide:

“ – Vou te dar meu trenzinho.”

Dona Beth aparece, abaixa-se de frente ao filho e diz:

“ – Carlinhos, é esse mesmo que quer dar?
– Sim, mamãe.
– Seu pai ficará feliz.”

Carlinhos sorri aliviado, não queria magoar seu pai, Beth fala com Nina:

“ – Nina, o trenzinho é seu, Carlinhos te deu.”

Nina sorri…

Quando Denise chega, quase não acredita, sua alegria é tanta e seus olhos brilham igual ao de Nina, não para de agradecer, mas ao mesmo tempo diz que não pode aceitar, pois é um presente muito caro e ela nunca poderia dar um igual a Nina.

À noite, sua mãe ajoelha-se ao lado da cama com Nina e a manda agradecer a Deus pelo presente, e naquele momento Nina entendeu:

– Carlinhos era Deus!

Lana Novais

15 Comments

  1. Não se trata de endeusar o ser humano, se trata de mostrar como o olhar de uma criança pode ser puro o suficiente sem precisar das explicações adultas do que é Deus.

    1. Penso que o objetivo da autora não era de Deusificar ou Humanizar. Acredito e re intero minha impressão com a mensagem que fica. Somos humanos com virtudes e falhas, consigo ver isso no texto.
      Quanto ao gosto, é particular cada um tem o seu.

    2. Pelo visto vc não entende mesmo de literatura contemporânea, devido seus dogmas religiosos!!
      Entenda meu caro, não trata-se de deusificar humanos ou humanizar Deus.
      Trata-se apenas de uma interpretação confusa de uma pobre criança de 04 anos.
      Respeito sua opinião, todavia vc deve ler o texto com os “olhos” de uma criança de 04 anos e não julgar a autora como psicopata religiosa e irracional.
      O fato de vc gostar ou não, não diz respeito a ninguém, apenas a vc mesmo. Afinal ninguém é obrigado a acatar sua opinião, apenas respeitá-la.
      E o que é realmente irracional aqui neste texto é a miséria, a desigualdade social, pai alcoólatra, etc; abordada dentro deste contexto.
      Então #ficaadica.

  2. Deus escolhe sim até os mais pequenos para mostrar seu amor e cuidado pelos seus.

    Mas Deus é algo muito maior que apenas um ato de cuidado com o próximo.

    Espero que Nina um dia possa conhecer a grandiosidade de Deus e seu sublime amor.

  3. Deus, Diabo, bem ou mal … tudo relativo e preso a um ponto de vista humano que não consegue compreender nenhuma destas entidades ou conceitos já que, cada um destes é perfeito e para o ser humano, a perfeição é irreconhecível. Nina, em toda sua inocência, nos mostra um conceito que qualquer humano de qualquer idade faz, humanizar o irreconhecível.

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