*Morrer de Amor

Morrer de Amor

Lúcia quando menina leu um livro para escola chamado Amor de Perdição do Camilo Castelo Branco, nesse livro a mocinha morre de amor, Lúcia passou anos se perguntando se era possível morrer de amor, saudade ou qualquer outro sentimento, em meio a essas perguntas, Lúcia cresceu, foi a faculdade e se formou em medicina.

Lúcia via muitos acidentes e também viu mais pessoas morrerem do que gostaria, mas nenhuma delas havia morrido de amor, morriam de atropelamento, ou tiroteios, outros morriam de infarto, e alguns deitavam e morriam.

Sempre que podia Lúcia conversava com seus amigos psicólogos e psiquiatras para verem se os tratavam de amor, pois as vezes pensava, talvez não haja mais mortes de amor pois são tratados antes de qualquer tragédia, mas não, ele precisavam ser tratados pelos abusos sexuais ou morais, por pais violentos, pela ridicularização na adolescência, pelo espancamento do marido, mas nunca eram tratados por amor…

E assim passou-se muitos anos, até que Lúcia completou 55 anos, no fim do dia fizeram uma bela comemoração para a diretora do hospital, depois da comemoração Lúcia volta a trabalhar, na verdade ia apenas dar uma volta pelo hospital antes de ir para casa, mas ao passar pela ala infantil vê uma mulher chorando muito com um livro de história nas mãos, Lúcia se aproxima e a toca calmamente no ombro e pergunta:
– Está se sentindo mal?
– Não, meu filho está morrendo e nada acontece comigo, não há nada o que fazer…
– A senhora está em um hospital, em um dos melhores do país, tenho certeza que está sendo feito tudo que está ao nosso alcance para ajudar seu filho. Qual o problema de seu filho?

A mulher chorava muito, mas era um choro tranquilo, um choro conformado e disse:
– Ele está morrendo de amor, nós estamos morrendo de amor.

Lúcia afastou-se um pouco, queria olhar bem aquela mulher que não parecia estar morrendo, quando a mulher começa a falar, Lúcia se senta em um banco que tem no corredor e ouve sua história silenciosamente:
– Quando eu era bem jovem fui uma garota muita mimada pelos meus pais, mas também fui uma filha muito rebelde, fiz muito sexo, usei muitas drogas e peguei HIV, eu nunca soube se foi no sexo ou nas drogas que me infectei, como também nunca soube quem me infectou.

Quando descobri que tinha HIV parei com tudo, e até voltei a estudar, fiquei dois anos completamente sozinha, não queria fazer novos amigos, pois os velhos estavam todos morrendo, até que um dia John se aproximou de mim, logo contei a ele da minha doença, mas acho que ele não acreditou pois não tinha um sintoma, nada… nunca desenvolvi a doença.

Continuamos namorando, em 7 meses namoramos, noivamos e casamos, éramos muitos jovens, impulsivos e apaixonados, e na lua de mel como prova de amor ele quis fazer amor sem proteção, e naquela noite além de passar HIV para o meu marido, estava grávida de um menino.

Passou-se algum tempo, eu tinha esperança que nada aconteceria, afinal eu nunca tinha manifestado qualquer sintoma, mas com 2 anos de casada meu marido começou a manifestar os sintomas da AIDS apesar dos coquetéis ele morreu em menos de 4 meses, agora 5 anos depois vejo o mesmo acontecendo a meu filho, sem que eu manifeste qualquer sintoma.

Acho que é um castigo do destino, por ter dado essa doença as pessoas que mais amei as veria morrendo dessa forma tão dolorosa, passaria pela dor de cada um deles, eu preferia morrer de AIDS do que viver com essa dor em meu peito que nunca passa.

Lúcia não tinha o que dizer aquela mulher, e sem saber o que falar levantou-se deu-lhe um abraço e partiu..

A mulher vendo que Lúcia partia, disse:
– Sei que não pode entender como pude permitir isso ao meu marido e filho, mas peço apenas que entenda minha dor… ao menos saiba que cada palavra que utilizei nessa conversa foi uma lágrima, uma dor, uma saudade, um arrependimento…

Lúcia ouviu isso sem conseguir virar-se para trás, apenas ouviu e partiu.

Lúcia ao chegar em casa, foi até a sala, sentou-se no sofá, e começou a lembrar daquelas palavras: “Ele está morrendo de amor… Nós estamos morrendo de amor… Morrendo de amor…”

Ao lembrar dessas palavras, começou a lembrar-se de cada um de seus pacientes e percebeu que todos morriam de algum sentimento.

Cris morreu por tanto ter medo de seu marido, que deixou que ele a espancasse até a morte.

Joana morreu por tanto amar seu filho, por isso passou naquele bar antes de ir para casa, para lhe comprar um doce, levando aquele tiro fatal.

Talvez se Roberto não fosse tão apaixonado por sua namorada não teria bebido tanto e dirigido, depois de vê-la o traindo.

É, todo morriam afinal por causa do sentimento, e Lúcia perguntou-se:

Muitos morrem de amor, mas do que morrerei? Passei a vida buscando uma resposta, e deixei de viver todas as outras perguntas. Eu, não morrerei de amor…

Lúcia ali sentada no sofá tirou os sapatos, esticou as pernas apoiando os pés em uma mesa de centro, coisa que não costumava fazer, nessa posição confortável começou a pensar em todos os amores que deixou de viver, dos filhos que não teve, dos telefonemas que não deu, dos domingos sozinha, dos amigos que não cultivou, e lágrimas correram, e assim pôde entender aquelas palavras: “Cada palavra é uma lágrima, uma dor, uma saudade, um arrependimento…”

Em meio as lágrimas, pensamentos, lembranças, entre fotos criadas em sua memória daquilo que viveu e do que deixou de viver, adormeceu e nunca mais acordou.

Lana Novais

18 Comments

  1. Adriana! Sensacional!! Que reflexão mais linda. Amei de verdade. Posso dizer que enquanto amamos, haverá vida, e assim que pararmos de amar, pode ser o fim. Não necessariamente o fim orgânico, mas sim psicológico, mesmo a delinqüir , jamais saberão o quanto a gente ama e jamais teremos algo pra remediar essa dor infinita.

  2. Muito bom o Texto, aprendi que “estar só pode até ser mais confortável, mas amar pode valer a pena”.

    Um exemplo de quem morreu por amor eu tenho: é Jesus Cristo! Mas nem todos valorizam, ou desejam este nobre amor, simplesmente lamentável.

    Parabéns Lana.

  3. Amor há Amor se pudéssemos viveríamos para o amor e pelo amor, sentimento da mais nobre pureza..Teriamos então a certeza que nossas vidas valeram a pena que fizemos tudo que podíamos para não deixar esse sentimento se esvair por nossas mãos.E no momento de nossa morte estrelas brilhariam e o amor junto conosco seria eterno

  4. Nossa, esse é forte, muito bom o texto, realmente todos passam pela vida e geram algum sentimento e quem sabe um dia não seja por esse sentimento que morreremos. Parabéns Lana!

  5. ” Viver à vida “, fazer e cultivar amigos, amores, família!Texto simplesmente perfeito.É eu morrerei do que?Me fiz essa pergunta, não achei a resposta.São tantas coisas em nossas vidas, que acabamos morrendo aos poucos, sem ao menos perceber.

    Lido texto, ótima reflexão.
    Parabéns Dri.

  6. Muito linda sua história. Muitos morrem de amor ou por falta de amor.
    Fazia tempo que não escrevia, não pare nunca, vc tem um dom incrível

  7. Nossa amei esse texto, sem dúvida foi um dos melhores, principalmente a parte, “cada palavra é uma lágrima, uma dor, uma saudade, um arrependimento .. isso foi muito profundo ❤ só pra finalizar gostaria de deixar um texto que esse texto me lembrou , que diz:Os mortos recebem mais flores do que os vivos porque o remórcio é maior que a gratidão ! , temos que viver como se hoje fosse o último dia, pois amanhã pode não acontecer.

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